A SANTA LANÇA
A descoberta da Santa Lança
pelos cavaleiros cruzados, o instrumento
mortífero que teria trespassado o corpo de
Cristo quando este agonizava na cruz, numa
escavação feita no interior da catedral de
Antióquia na Síria, provocou uma reviravolta
no sentimento dos cristãos. Até aquele
momento eles, cercados pelos muçulmanos,
acreditavam que o seu empreendimento, isto
é, a reconquista da Terra Santa, era um
causa perdida. Porém, a noticia de que
haviam encontrado aquela relíquia que trazia
o sangue de Jesus, incendiou os ânimos dos
cruzados o suficiente para eles partirem
para a arrancada final em direção à Jerusalém.
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Um pedido de audiência
Foi em antigas terras sírias, na cidade de Antióquia, recém
ocupada pelos exércitos da Primeira Cruzada, que esta história se
passou. O ano era de 1098. Um homem de aparência camponesa,
amassando humildemente seu gorro, solicitou aos guardas que montavam
sentinela na tenda do conde Raimundo, um dos chefes da expedição, o
direito de vê-lo: ao conde e ao bispo de Puy. Desejava relatar-lhes
um acontecimento inaudito. Os cruzados haviam tomado recentemente a
cidade, mas meteram-se numa verdadeira ratoeira. Ocuparam-na mas
dela não podiam sair. Lá fora um imenso contingente chefiado pelo
atabeg turco de Mossul os aguardava pronto para dar o bote assim que
ousassem colocar-se fora das muralhas. Enquanto isso, a soldadesca
cristã era tomada de um assombroso desabamento moral. Quase ninguém
mais cumpria ordens. Com exceção dos homens de confiança dos
príncipes cruzados, o resto tinha-se transformado numa massa
disforme, turbulenta e indisciplinada. A eles se somavam aos
peregrinos miseráveis que os acompanhavam, encharcados em álcool e
fanatismo, duplo material inflamável a estimular desordens. Foi em
meio a essas circunstâncias dramáticas que Pierre Barthélemy, este
era o nome do pobre diabo, pediu audiência a Suas Excelências. Um
cronista daquela época registrou o dia: 10 de junho. Barthélemy dava
seu primeiro passo para ficar na história.
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A aparição divina
Ocorre, contou ele aos cavaleiros, que já fazia algum
tempo que ele recebera a visita de Santo André que, entre tantos, o
escolheu para dar instruções aos chefes cruzados. Malnascido e de
fama duvidosa entre os peregrinos por suas excessivas inclinações
pecaminosas, etílicas e carnais, não se sentira até então com a
coragem suficiente para abordar os grandes homens que comandavam o
resgate da Terra Santa. Santo André, porém, não lhe dava folga.
Dotado de uma cabeleira intensamente prateada, por vezes acompanhado
de um mancebo belíssimo, a aparição não parava de xingá-lo.
Impaciente com a indecisão de Barthélemy, chegou a pensar em
amaldiçoá-lo. Foi então que, temendo mais os furores divinos do que
a soberba do conde e do bispo, ele tomou coragem para vir
falar-lhes. Em sua última revelação, relatou ele aos líderes, o
santo informou-lhe que a Santa Lança, a que trespassara o corpo de
Cristo, estava ali mesmo, na própria cidade de Antióquia. O santo
chegou a lhe mostrar o lugar antes de se evaporar nos céus. Estava
enterrada no chão da catedral de São Pedro, local que os turcos
haviam transformado em mesquita mas que desde a ocupação dos
cruzados voltara a oficiar os sacramentos cristãos. Bastava um
punhado de homens para desencavá-la. A maioria dos príncipes fez
mofa quando soube da história do visionário, sem esquecerem de
mencionar que os restos de uma Santa Lança já se encontravam
depositados na catedral de Santa Sofia, em Constantinopla. Naqueles
tempos, entretanto, relíquias duplas eram encontradas em todas as
partes, restos de santos eram disputados por cidades diferentes.
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Fachada da antiga catedral de Antióquia |
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Atrás da relíquia
O conde Raimundo mediu as condições e, impressionado
pela veemência do relato de Barthélemy, acreditou que nada perderia
se emprestasse alguns homens para que auxiliassem-no na procura. O
santo fora preciso. O grupo de escavadores tinha que ter o número
apostólico de doze. No dia 14 de junho, o visionário e seus homens,
supervisionados pelo próprio conde Raimundo, deu início à
empreitada. Marcaram o local e começaram a cavar. O buraco já ia bem
fundo quando o desânimo começou a minar seus esforços. Não se
encontrou nada de nada. Foi então que Barthélemy, coberto apenas por
uma camisa, suado, jogou-se na trincheira aberta e, rasgando a terra
com as próprias mãos, não demorando muito em saltar para fora
empunhando um pedaço de ferro. Envolta em ferrugem e em negrume
histórico, ele tinha certeza, lá estava ela: a Santa Lança! Quem
sabe se ainda estariam grudadas nela algumas gotas de sangue de
Jesus? A descoberta provocou um frêmito de fervor nas tropas. Aos
magotes, os soldados jogavam-se ao chão arrependidos das arruaças e
pediam perdão aos seus sargentos e oficiais. Os peregrinos, por sua
vez, tomados de choro convulsivo, comprometiam-se mutuamente a não
desistir de chegar a Jerusalém.
Duas semanas depois, um dos mais belicosos príncipes cruzados,
Boemondo, resolveu quebrar o anel de ferro que os turcos haviam
imposto a Antióquia. Numa manobra audaz, colocou suas tropas do lado
de fora da cidade e atacou com furor fanático as tropas do atabeg. O
olhar alucinado dos cristãos, fanatizados, deve ter impressionado os
turcos, que correram espavoridos em todas as direções. As instruções
de Santo André, que havia novamente aparecido para Barthélemy antes
da batalha, era de que não se detivessem saqueando o acampamento de
Kurbuka, o chefe turco, mas sim dar-lhe caça até a completa
exaustão. No final do dia não se encontrava um só muçulmano à vista.
A estrada para a Cidade Santa estava aberta.
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Um novo profeta
Barthélemy foi guindado
informalmente à função de profeta. Tornou-se
um dos conselheiros do conde Raimundo, a
quem começou a inspirar. Sim, porque os
santos, e até Cristo em pessoa, não paravam
mais de falar com o homem. Em pouco tempo as
rivalidades e disputas internas entre os
cruzados passaram a ser arbitradas por
aquele que mantinha um diálogo com o
sobrenatural. A tensão entre franceses
nortistas e sulistas dia-a-dia se agravava:
a quem competia o comando da marcha final e
qual roteiro deveria se seguir? Um capelão
dos nortistas, chamado Arnulfo de Rohers,
desconfiado daquela intimidade de Barthélemy
com o mundo divino, deu início a uma aberta
campanha contra o novo profeta. Um forte
zunzum tomou conta dos acampamentos. Tudo,
diziam os invejosos, não passava de
encenação daquela gente sulista, pois ele,
aquele pseudoprofeta, vinha da Provence, a
mesma terra do conde Raimundo, a quem as
visões sempre orientavam.
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O sítio de Jerusalém, ano de
1099 |
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Mouros contra cristãos |
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A prova do ordálio
Aquela suspeita exasperou o
iluminado. Se duvidassem dele, disse
Barthélemy, que o submetessem a uma prova
qualquer, ao julgamento de Deus que fosse.
Imediatamente o clero, ciumento da
ascendência que aquele pé-rapado sem eira
nem beira exercia nas altas esferas, humanas
e divinas, não hesitou em preparar-lhe um
ordálio. Seria o teste definitivo. Que os
carvões em chamas determinassem se ele
falava a verdade ou não. Duas imensas pilhas
de lenha foram colocadas lado a lado e
incendiadas. Pierre Barthélemy abençoou-se
e, vestido apenas com uma simplória túnica,
lançou-se sobre o braseiro. O pobre saiu
terrivelmente queimado; mesmo assim tentou
retornar mas foi impedido por um espectador.
Agonizou ainda por mais doze dias, quando
então suspirou.
Para muitos, foi a constatação do seu
charlatanismo, para outros, bem ao
contrário, os restos cremados e enfumaçados
do que vestia tornaram-se verdadeiras
relíquias. Há, como é sabido, uma natural e
humana inclinação em acreditar-se em tudo
aquilo que é afirmado com energia e
veemência, e esta nunca faltou ao fracassado
visionário.
Uns tempos depois, em 1099, os cruzados
chegaram a Jerusalém e afogaram-na num
terrível banho de sangue que horrorizou para
sempre os muçulmanos. Desde então, o ódio
entre estes dois mundos, o Cristão e o do
Islã, tem sido latente e irrefreável. É de
pensar-se, por outro lado, que se não
tivessem dado crédito às visões daquele
embusteiro, Jerusalém não teria sido
conquistada e as relações da Cristandade com
o Islã não seriam tão passionais nem teriam
acumulado tanto amargor neste tempo todo.
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